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Minha História - Fiore

19/04/2011, por Corpore


Antonio Carlos Fiore

Meu envolvimento com o atletismo se iniciou na infância ao tomar conhecimento das histórias maravilhosas de Emil Zatopek e de Abebe Bikila, além de acompanhar todos os anos a São Silvestre, fosse pelo rádio ou pela televisão.

Fui um fumante inveterado dos 16 aos 32 anos de idade. Quando finalmente consegui parar de fumar comecei a ganhar peso. Para tentar manter a situação sob controle passei a freqüentar o Parque do Ibirapuera onde eu fazia pequenas corridas.

Com o passar do tempo, fui conhecendo pessoas que me foram introduzindo no fantástico mundo das corridas. Fiquei muito entusiasmado quando descobri que qualquer cidadão poderia se inscrever na São Silvestre (eu achava que era uma coisa só de clubes federados).

Em janeiro passado completei 80.000 kms de treinos e corridas ao longo de 28 anos e meio. A primeira marcação em minhas agendas se deu em 6 de julho de 1.982 no percurso de 6 km da Av. Sumaré que completei em honrosos 36’26”, com o uniforme completo de jogador de tênis frustrado, inclusive com tênis Adidas de couro...

As agendas de treinos que passei a usar eram encontradas nas lojas de materiais esportivos. Eram difíceis de serem encontradas. Iniciei marcando em uma agenda chamada “Diário do Corredor” que foi desenvolvida pela Power (marca de tênis). Depois usei uma que tempos depois fiquei sabendo que havia sido desenvolvida pelo Cláudio Zuccolo meu parceiro de muitos treinos e corridas, denominada “treinos & corridas”. Depois disso, em viagens para correr a maratona de New York encontrei várias outras. Abandonei o uso das agendas, que guardo até hoje, em 2.007 quando passei a fazer o registro dos treinos e corridas em meu computador.

Considero que tenho 27 maratonas, apesar de apenas 25 serem oficiais. As duas extra-oficiais foram treinos que fiz na USP visando a Comrades (quatro voltas de 10 kms mais 2,2 kms).

Desejo seguir treinando em busca de atingir os 100.000 kms. O problema de minhas fibroses são realmente sérios. Por vezes me sinto desanimado.
Continuo buscando uma solução que me permita voltar a treinar com afinco e sem medo de novas contusões.

Na raia 1 da pista de atletismo do E. C. Pinheiros corri mais de 50.000 km. Me associei ao clube exclusivamente pelo desejo de treinar em uma pista oficial de atletismo. Cheguei ao exagero de fazer minhas repetições com sapatilhas de prego (início de meus problemas nas panturrilhas).

Sempre gostei de treinar na pista, pois, meus treinos e anotações na agenda eram sempre pela distância percorrida e não pelo tempo do treino. Como não havia GPS eu usava o número de voltas dadas na pista para controlar o volume treinado.

Além disso, o fato de correr tantas vezes na raia 1 me permitiu desenvolver o poder de concentração e manutenção de determinados ritmos de forma constante ao longo de treinos e de competições.

Várias vezes, com meu parceiro de corridas Roberto “Dentinho” Serra, fazíamos repetições, nas quais o que ia à frente deveria dar o ritmo sem olhar no relógio. A graça da brincadeira era ver quem acertava mais vezes. Olhe que a briga sempre foi muito acirrada.

Para fazer os treinos denominados “tempo run” também a raia 1 foi a melhor parceira.

Nesses 29 anos tive a oportunidade de correr 80 meia maratonas. De curioso houve o fato de que em 1.997 no período de cinco semanas participei de quatro meias maratona. Constantemente fiz essa distância em tempos abaixo de 1h30min e a melhor delas foi na Meia Maratona de Garda na Itália onde pude completá-la em 01h23min’11” em setembro de 1.997.

Quanto às provas de 10 kms participei de 55 delas. Tempos em torno dos 40min foram constantes. A melhor foi na Praia Grande com 38’01” enquanto que nas do Circuito da Corpore a melhor foi em 38’23” na SP Classic em 1.994.

Minha mulher, a Anna Cáfaro, também é corredora apaixonada pelo atletismo. A diferença é que ela começou a correr antes do que eu. Iniciou no atletismo fazendo provas de velocidade à época da faculdade. Corria provas 100 / 200 e 400 metros. No início dos anos 80 converteu-se às provas de fundo já tendo participado de cerca de 12 maratonas.

As provas de distancias superiores à maratona sempre me soaram absurdas até o dia em que resolvi participar de uma Comrades. No segundo semestre de 2.003 conversando com a Anna comentei a respeito desse desejo. O incentivo foi imediato. Os planos de treino se iniciaram nessa mesma conversa. Treinei forte de novembro de 2.003 a maio de 2.004. Tudo estava correndo, no sentido literal da palavra, muito bem, entretanto a quinze dias do evento meu tendão de Aquiles se manifestou de forma intensa. Achei que não seria possível fazer a prova.

No grande dia lá estava eu na linha de largada. Em torno do km 15 a dor foi ficando intensa. No km 18 o André Arruda de Campinas me alcançou e perguntou como eu estava. Ao lhe responder que estava pensando em parar ele se adiantou alguns metros. Segundos depois se virou em minha direção e gritou algo do tipo “Fiore se você abandonar essa prova, você nunca irá se perdoar”. Pensei nisso durante os dois próximos quilômetros e realmente foi a energia que me fez ir até o final. Consegui completá-la em 9h29min. Esperava ter conseguido um tempo muito melhor, porém dadas às minhas condições fiquei muito satisfeito.

Foi uma prova muito difícil porém nada se compara à primeira maratona que consegui completar no Rio de Janeiro em 1.983. Aquilo sim foi sofrimento. Andei do km 35 ao 38. Na chegada a sensação que eu tive foi a de que se não recebesse auxílio para descalçar os meus tênis, provavelmente eu estaria com eles nos pés até hoje.

Acho que o ano era 1.992. Um grupo de amigos corredores sentia que faltava para apoiar o crescimento das corridas em nossa cidade uma organização que cuidasse dos detalhes e da divulgação do nosso esporte.

Esse grupo olhou e cuidou com carinho do reerguimento da Corpore que tantos bons serviços havia prestado aos corredores até então.

Muitas reuniões foram feitas nas salas do Constancio Vaz Guimarães até que finalmente o projeto decolou. Os presidentes, diretores e conselheiros foram escolhidos e nomeados. Daquela época em diante todos somos testemunhas de tudo que aconteceu.

Fui conselheiro por um bom tempo e vice-presidente do Conselho Deliberativo por duas gestões. Razões profissionais à época me impediram de atuar de forma mais consistente razão pela qual deixei de participar e me mantive como um feliz associado com o número 006.

O posto de laranjas do km 36 tem uma história muito bonita. A Anna Cáfaro, minha mulher, tem uma irmã (Anna Cristina) que iria correr a maratona de São Paulo. Preocupada em dar o apoio necessário à irmã, ela procurou montar um posto com frutas para reabastecê-la naqueles quilômetros finais da maratona onde a maioria agradece qualquer apoio. Fez isso e percebeu que além de ajudar a irmã ela ajudou uma porção de outros corredores. Daí em diante ela não mais parou. Todos os anos ela, com a ajuda da família, inclusive eu, monta e abastece o posto da laranja no km 36 da maratona de São Paulo. Esse posto se tornou tradicional e hoje em dia conta com o apoio da organização da prova que de alguns anos para cá cede voluntários para o auxílio a todos os corredores. Participar desse posto é uma das coisas mais gratificantes que fiz em minha vida. Você ouve dos corredores palavras que emocionam em agradecimento às frutas que disponibilizamos. Só quem participou de uma maratona é que pode entender a importância desses atos.

Uma de minhas frustrações foi a de não ter estudado Educação Física. Sempre amei os esportes, porém quando garoto formar-se em Educação Física significava invariavelmente tornar-se professor na escola pública. Acabei optando pela Administração de Empresas que cursei na Fundação Getulio Vargas. Trabalho desde os meus 16 anos, ou seja há 45 anos ininterruptamente estou no mercado de trabalho atuando quase sempre nas áreas financeiras.

Coincidentemente meus trabalhos após deixar a Price Waterhouse se concentraram em empresas varejistas e empresas editoriais. Fui diretor das Editoras Scipione e Ática, além de ter sido diretor das Lojas Abaeté, Daslu e Shoestock.

Há cerca de dois anos resolvi ter meu próprio negócio e montei uma loja que atua com calçados e bolsas denominada Fina Seraphina.
Até hoje penso que ainda é tempo de estudar Educação Física.

Tenho convicção de que se eu tivesse começado a treinar na época correta eu poderia ter sido um bom corredor de provas de fundo.

Sou competitivo e aprendi a superar muitas frustrações através da prática das corridas. Não são todos os dias que conseguimos atingir nossas metas, então, nas vezes em que não as conseguimos é importante entender que faltou alguma coisa ou que outros corredores melhores preparados física e mentalmente nos superaram.

Fiz muitos amigos através das corridas. Tive a oportunidade de me relacionar de forma equilibrada com empresários, banqueiros, porteiros, desempregados, aposentados e tantos outros. Em comum tínhamos o amor pelo atletismo e o desejo de evoluirmos com o treinamento que tão a sério levamos.

Para finalizar gostaria de comentar alguns fatos curiosos que ocorreram durante esses longos 80.000 km percorridos.

Seis meses antes de iniciar meus treinos comprei um livro chamado: O Guia completo de corridas de autoria de Jim Fixx. Foi meu livro de cabeceira e acredito que em função de sua leitura achei o incentivo para parar de fumar e começar a correr.

Quinze dias após ter começado a treinar, estava em uma reunião com o Dr. Eduardo Jardim. No final da reunião ele me disse: “Fiore preciso ir agora, pois, tenho que fazer meu treino, pois daqui a alguns meses teremos a São Silvestre”. Aquilo foi uma luz para mim. Eu achava que só podiam participar de competições os atletas federados. Saber que participar de corridas era possível foi o incentivo final que precisava. O Dr. Eduardo nesse mesmo dia me ensinou uma porção de coisas. Fiquei sabendo que existiam tênis específicos para corridas, existiam roupas apropriadas para tal e que havia inúmeras corridas além da São Silvestre.

Alguns meses ter começado a correr com alguma regularidade li no jornal que haveria uma maratona em São Paulo. Não tive dúvidas fiz minha inscrição, pois pensava que era apenas uma questão de paciência correr os 42 quilômetros. Afinal quem corre 10 km correria os 42 km. No dia da prova, em 23 de janeiro de 1.983 lá estava eu na confluência da Ibirapuera com a Indianópolis para a largada. No quilometro 10 que era na marginal do Pinheiros dei a primeira caminhada do que estava se tornando um verdadeiro sofrimento. Após muito esforço quando estava no km26 dentro da USP com três horas de corrida me rendi e pela primeira e ultima vez entrei no ônibus prego que tinha acabado de me alcançar. Me senti aliviado, pois o sofrimento havia acabado e naquele momento eu aprendi de forma muito dolorosa que a maratona não perdoa os aventureiros.

Meses depois, com um pouco mais de seriedade consegui completar minha primeira maratona. Isso foi em 2 de julho de 1.983 no Rio de Janeiro. Após essa maratona completada em 04h24min passei a almejar a melhoria de meu tempo. A meta passou a ser baixar de 3:45. Fui novamente ao Rio de Janeiro em 1.984 disposto a isso, porém só consegui 03h58min o que não deixou de ser um feito: a primeira sub 4 horas. Comprei um livro na feira dessa maratona chamado Maratona com dedicatória do autor (Ayrton Ferreira) me incentivando a buscar a meta das 3h45min.

Em 1.985 participei pela primeira vez de uma maratona internacional. Éramos poucos os brasileiros lá presentes. Acredito que no máximo 10 corredores de São Paulo estavam por lá. Entre eles o Victor Malzoni que tanto ajudou no desenvolvimento das corridas no Brasil. Me superei e com dois anos de treinos completei a maratona em 3:12’31”.

Fui e sou um ávido leitor de livros e revistas de corridas. Tenho bons livros em minha coleção. Releio inúmeras vezes todos eles. Tenho especial interesse nas previsões de desempenho que muitos autores preparam e quase sempre acertam. Lembro claramente do lançamento da Revista Viva- a revista da corrida. Li todos os exemplares.
Lia muito a Runner’s e a Running World que se fundiram dar início à Runner’s World.
No início da década de 90, junto com amigos corredores (Laerte Padilla, Marcos Arruda e Robertinho Ferreira) montamos um projeto para o lançamento de uma revista de corrida no Brasil. Infelizmente nosso projeto não foi adiante.

Sempre fui fiel a um só treinador de atletismo (não confundir com personal trainer). Desde 1.984 treino com o Wanderlei de Oliveira. É o treinador que leva o atletismo a sério. Cada um de seus treinandos são tratados e exigidos como corredores olímpicos e como tal todos devem ver o esporte que praticam com a seriedade que merece.

No início dos anos 80, quem não era da tribo dos corredores não conseguia entender os motivos que nos levavam a competir sem qualquer chance de vencer. Profissionalmente muitas vezes pude perceber que as pessoas não entendiam que eu após encerrar um dia de trabalho me dirigia ao clube para treinar. Se vai treinar, porque não fica trabalhando até mais tarde?






 
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