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Paulo Renato Amaral - Nato

01/08/2011, por Corpore


Brasileiro vira Leão na Africa do Sul


Desde criança fui atleta e comecei muito cedo a praticar natação no clube, migrando aos 11 anos para o pólo aquático que pratiquei por mais de 10 anos, chegando a fazer parte da Seleção Brasileira Junior.


Comecei a correr aos 19 anos, quando servi o Exército Brasileiro. Na época, eu fazia mais por obrigação militar e nem podia imaginar que isso se transformaria na minha grande paixão - num esporte - e que proporcionaria minhas maiores conquistas e emoções.


Em 1997, sonhando em fazer um Ironman, comecei a treinar com o Prof. Butenas, mas logo me desmotivei do triathlon e, quase sem preparo, encarei a Maratona de São Paulo que concluí com um tempo altíssimo.


Em 1998, minha vida mudou. Por intermédio do amigo Marcola, conheci o Prof. Branca e montamos um planejamento para, em 4 a 5 meses, fazermos a Maratona de Nova York. Considero essa a minha verdadeira estreia em maratonas, pois treinei com foco nela e consegui o resultado que desejava: concluir abaixo de 4 horas. Terminei a prova em 3h59’53”.


No ano 2000 estava decidido a treinar muito, buscar o meu melhor e cravar o meu recorde pessoal. Fui novamente para Nova York e voei baixo. Me realizei ao cruzar a linha de chegada em 3h26’23”, minha melhor marca até hoje. Foi um dia perfeito e nem acreditava que conseguiria correr os 42km com média abaixo de 5 minutos por quilômetro. Mas consegui.


Em 1999, meu treinador, Branca, foi com um grupo de atletas para a África do Sul para participar da Comrades Marathon, prova de 89 km. Quando ele comentou, eu nunca tinha ouvido falar, afinal era uma prova quase desconhecida entre os brasileiros. Mas, naquele ano, ele disse para mim: “Você ainda não está preparado, mas daqui a alguns anos você tem que fazer essa prova.” No ano seguinte, conversando com amigos que haviam participado, eu já estava pouco a pouco amadurecendo a ideia até que, no início de 2001, em uma reunião de nossa equipe de corrida, o Branca decretou: “O Nato vai fazer a Comrades”. Daquele dia em diante, eu passei a treinar para esse desafio, que aconteceria no dia 16 de junho.


Toda preparação foi com o Branca e meus amigos da equipe Branca Esportes. Fiz quase todos os meus treinos longos aos sábados na USP e um treino de 60 km numa estrada que leva para Ibiúna.


Realizei muitos treinos sozinho e alguns com amigos, sempre comprometido com o resultado que almejava alcançar.


Minha estréia de gala foi na Comrades 2001 obtendo o segundo melhor tempo brasileiro na história: 8h33’57”. Me senti muito bem, corri sem preocupações, curti todo o percurso e me apaixonei por essa prova.


Indescritível a emoção de concluir minha primeira Comrades, uma realização incomparável. Eu sabia que enfrentaria dificuldades, mas jamais imaginava conseguir terminar com um tempo tão bom.


Antes mesmo de participar da minha primeira Comrades, lá na feira para a retirada do kit, pude ter a dimensão e a grandiosidade do evento que estava participando. Eu já havia ouvido falar do tal do Green Number, mas foi lá que eu realmente percebi o que tudo aquilo significava para aquele povo. E foi naquele momento que eu decidi e assumi um compromisso comigo mesmo: “vou fazer 10 Comrades, me tornarei um Green Number”.


O Green Number é a perpetuação do seu número de prova, concedido aos atletas que completam 10 Comrades. Esse é o prêmio máximo concedido pela Organização e almejado por milhares de corredores. Ao cruzar a linha de chegada pela 10ª vez, o atleta recebe a sua medalha e é conduzido a uma área reservada onde é feita a solenidade de entrega do Green Number e um ex-campeão da prova entrega ao atleta essa condecoração. Bordado em amarelo- ouro sobre um tecido na cor verde e ladeado de folhas de louro, o número passa a ser daquele atleta para a posteridade. E, a partir do ano seguinte, o seu número é diferenciado, na cor verde, para que todos os atletas e o público saibam que se trata de um Green Number. Ao fazer parte do Green Number Club, o atleta tem algumas regalias, como, por exemplo, o acesso à compra de produtos exclusivos aos Green Numbers e também a possibilidade de largar em um local diferenciado no dia da prova.


Completar a minha 10ª Comrades é algo que jamais esquecerei. Me dediquei muito para essa prova, me entreguei de verdade. Fiz um minucioso planejamento e segui à risca com pequenos ajustes. Foi uma preparação quase perfeita e fui plenamente recompensado no dia da prova: não só conquistei o Green Number mas consegui a façanha de cravar o meu recorde pessoal estabelecendo a minha nova melhor marca com apenas 4 segundos a menos daquela que eu havia estabelecido 10 anos atrás: 8h33’53”. Para aumentar o brilho, estavam me assistindo bem em frente à linha de chegada, minha mãe Edith, minha esposa Josi e a minha querida amiga Ciça. Foi um dos dias mais felizes da minha vida, sem dúvida, uma das minhas maiores conquistas, única, eterna. É claro que teve uma alta dose de dedicação pessoal, mas dedico a conquista do Green Number ao meu grande amigo e treinador: Branca.


Sinto-me realizado por ter concretizado um grande sonho, que foi conseguido com muito planejamento, enorme disciplina, dedicação, humildade e determinação. E mais feliz ainda ao ver que a Comrades vem crescendo numa velocidade incrível entre os brasileiros nos últimos anos e já há alguns outros atletas que também traçaram esse mesmo objetivo e estão em busca do Green Number.


Jamais pensei em desistir, pois sempre tive muito claro e muito intenso o meu objetivo, o meu sonho. Sem dúvida tive momentos de baixa motivação e a preguiça de saber tudo o que eu tinha que enfrentar para fazer mais uma Comrades, mas nunca fui vencido. Superei essas situações, calcei meus tênis e fui pro asfalto. Treinei muito, fiz mais uma Comrades. E outra, mais outra. A cada ano que me aproximava da 10ª, minha ansiedade e desejo aumentavam ainda mais, pois sabia que a recompensa seria infinitamente maior do que toda a energia despendida. Mesmo sendo amador, tenho disciplina como a de um atleta profissional. Durante o treinamento específico, me privo de vários prazeres da vida, como doces e outros tipos de alimentos gordurosos. Privilegio o repouso, procuro descansar adequadamente. Acordo muito cedo para treinar aos sábados, não tenho medo de encarar os desafios. Mantenho o meu sonho sempre muito vivo e, a qualquer momento, sei com clareza o motivo de eu estar fazendo todo aquele sacrifício. Enxergo sempre as recompensas e isso me impulsiona cada vez mais.


Em cada prova, há uma dificuldade específica. É claro que em algumas eu sofri muito mais, como em 2003 quando viajei lesionado e corri com fortes dores no joelho. Em 2010, quando comi algo que não me fez bem no café da manhã , fiz a prova inteira com cólicas estomacais, tendo que parar algumas vezes para ir ao banheiro.
Durante a fase de preparação para uma prova como a Comrades, faço meus exames de sangue e tenho acompanhamento de um nutricionista, que me passa orientações de como me alimentar durante os treinos e também na competição. Minha alimentação, nesse período, é bem regrada e muito saudável.


Durante a semana, meus treinos acontecem à noite, após o trabalho, no Ibirapuera. Nos fins de semana, treino sempre pela manhã, sendo que aos sábados gosto de rodar na USP e, aos domingos, é livre, mas costumo ir também ao Ibirapuera.
Jamais tive problemas sérios de saúde em qualquer prova ou mesmo nos treinos. Apenas sofri com tendinites e outros tipos de lesões, normais, para quem faz longas distâncias.
Depois de uma prova, em 2 semanas, já posso voltar a correr bem leve, mas em geral volto aos treinos leves após mais de um mês. Esse é o meu mês, onde celebro mesmo o resultado alcançado e curto com amigos e família.


Desde então, participei de muitas provas, dentre elas cerca de 20 maratonas. A mais recente foi a de Londres, em abril de 2011, que conclui em 3h35’.


Sou movido por grandes desafios e já tracei uma meta ousada: vou fazer mais 10 Comrades e conquistar o Double Green Number, honraria concedida aos atletas que completam a Comrades por 20 vezes. Ao passo que o Green Number possui o número do atleta ladeado por um par de ramos de louro, o Double Green Number vem ladeado por 2 pares de ramos de louro. E é esse o meu objetivo para os próximos 10 anos.


Qual o aprendizado, lição de vida, a corrida me trouxe? HUMILDADE. Sem sombra de dúvidas esse é o maior legado de quem pratica corridas de rua. Todos podem, é um esporte totalmente democrático, sem restrições de idade ou sexo. E nunca se sabe o suficiente. A cada dia, a cada treino, a cada corrida você terá algo a aprender. Com o seu treinador, com seus colegas, consigo próprio. E, o mais importante, você aprenderá a conhecer e respeitar os seus limites. Esse aprendizado o deixará mais preparado para alcançar os seus melhores resultados e para superar os mais difíceis obstáculos. Humildade é a chave.



Para aqueles que estão sem motivação para levantar cedo e treinar, dou um conselho: estabeleça uma meta arrojada, ambiciosa, a médio ou longo prazo, mas com etapas intermediárias a serem cumpridas. Escreva essa meta. Se você não escrever o que pretende fazer e quando, não será forte o suficiente para motivá-lo a lutar por aquilo que desejou. Pegue o seu calendário de corridas nacionais ou internacionais, escolha uma que seja o seu sonho, estabeleça se irá fazer neste ano, no ano que vem ou mesmo no próximo, e trace um planejamento para galgar passos até chegar lá. Coloque essa sua meta em local de fácil visualização, para que a chama fique sempre acesa. Lute muito, com raça e determinação, que você vai conseguir. Lembre-se que é muito mais fácil ficar no sofá do que calçar um par de tênis e sair para correr: às vezes no frio, às vezes no calor, ora à noite, ora na madrugada. Não importam as dificuldades. Se o seu sonho for grande o suficiente, você fará o que for necessário para conquistá-lo. E foi assim que eu fiz com a Comrades em minha vida.


Como arrumar tempo pra treinar? É importante para você realizar aquele sonho? Aquela meta? Aquele objetivo que você traçou? Se a resposta for “não”, realmente você não terá tempo. Mas se a resposta for “sim”, com certeza você encontrará um tempo nas 24 horas de seu dia para se dedicar a esse ambicioso projeto. Comece e não pare nunca mais. Vale a pena.




 
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